22 abril, 2006


Os raios de sol descem na minha direcção
Mas não os sinto.
Estendo a minha face na sua direcção
Embora o meu mais intímo desejo
Me leve novamente ao meu refúgio de sempre.
Tudo corre velozmente ao meu lado, no meu mundo;
Nada me toca, tudo vive ansiosamente em meu redor.
Vivo pendurada num ligeiro fio de cabelo frágil de uma princesa
E penso a todos os instantes da minha vida em largá-lo.
Mantém-me presa a eterna esperança de me encontrar,
Embora, a cada instante, tudo pareça, sempre, mais e mais, adiável.
Desejo-me sentir viva, sentir o mundo que corre a meu lado tornar-se meu;
Quero arrastar o mundo com as minhas vontades
Ao invés de ser arrastada pelas vãos desejos que passam pela cabeça de todos.

O mundo gira em meu redor à velocidade de um pião atirado
pelas mãos de um ancião que ganhou súbita vida neste momento de nostalgia;
A sensação ambígua de liberdade e total desalinho deixa-me sem fôlego.
As mãos percorrem o teclado,não por necessidade,
Ms por simples impet animal e brutal de quem nada mais sente,
Nada mais tem de seu, nada mais persegue
Senão o simples gesto para se sentir viva, presença no meio do mundo, Ser que merece permanecer por muito que insista que não.

A loucura no meio de loucos passa despercebida,
E ela cada dia ganha terreno, num gesto de soberba e volúpia.
Crava os seus dedos cobertos de asco na minha pele
Diz que me deseja como o maior dos amantes
E eu penso a todos os instantes em me entregar
Como uma virgem ao seu primeiro amor.

Desejo um escape, sonho com uma fuga,
Procuro em todas as direcções o caminho...
Continuo a encontrar pequenas ruelas, pequenos becos sem saída,
Momentos em que me sinto viva..
Continuo em busca do sentido que marcará toda a diferença..
É só continuar em busca do meu Norte

28 março, 2006


Escrevo-te hoje pela primeira vez!
Sim, a ti que talvez ainda não existas,
A ti que talvez nunca existirás mas que todos os dias povoas a minha mente e és desejado.
Imaginas a quantidade de vezes que já sonhei contigo?
Sonhas sequer que eu já senti o teu toque em toda a minha pele e gritei até à rouquidão para não desapareceres na penumbra?
Construo-te em mero esquiço
Anseio para que a realidade se torne melhor do que eu alguma vez ousarei sequer desejar.
Sei que nao te mereço, independentemente de quem és,
Independentemente de quanto tempo eu te poderei ter.
Já desisti da ideia de realmente te possuír,
Resigno-me à ideia de que a concretização do cheiro, da tua boca
Vai ficar apenas e sempre pelos meus sonhos e momentos de amargurada saudade do inexistente.

Porque te resolvi escrever hoje?
Porquê a vontade de me despedir de quem nunca conhecerei?
Hoje, mais que nunca provavelmente, senti a tua presença e a tua ausência..
Foste meu consolo em todos os minutos longos, pesados e passados que compuseram este meu dia..
Foste o receptor de uma emissão contínua de pedidos de socorros,
De gritos abafados de horror e desespero,
De evocações quase tão heréticas como religiosas que saltavam do meu peito.
Senti o frio quente e gelado que ocupa o teu lugar
E que constrói o teu eco numa silhueta fechada e delineada pela ilusão.
Deparei-me de novo com o facto há muito constatado,
Hoje embrutecido como a parede áspera de um convento para onde viaja meu ser e meu espaço de ter.
Hoje me despedi realmente de ti...
Aceito-te, tal como és!
Sempre fui demasiado exigente,
Sempre te imaginei à minha medida
Quando sempre me deste tudo o que tinhas,
Mais do que alguma alma pode suportar.
Aceito o desafio e abraço-te indelevelmente
Deixo-te entranhar-me e repousar sob os meus poros e neles deixar a marca da tua presença.
Sei que nunca serás meu,
O baralho estava invertido..
Não são os meus desejos que contam...
Será sempre a tua vontade a imperar.
Toma-me para ti, meu Amor;
Concretiza-me no teu acto!




15 março, 2006

Olhar da serpente


Um estranho passou ao meu lado na rua
O seu olhar entranhou-me todos os poros da minha alma...
Alcançou aqueles recantos que furiosamente tento manter intransponíveis.
Vi no seu olhar decepção e acusação
Encontrei nele tudo aquilo de que fujo,
Tudo aquilo que me esforço por nao querer ver.
Ele viu uma vida vazia de sentido,
Encontrou um futuro desalinhado e sem o caminho definido.

Um estranho olhou-me verdadeiramente.
É tão mais fácil iludir os que nos são intímos...
A eles mostramos o que gostariamos de ser,
Eles procuram em nós o que gostariam de ver.
Os olhos de um estranho são cruéis...
Sem remorsos dilaceram a teia que nos envolve,
Com um gesto tirano, arremessam-nos para o canto que há muito quisemos esquecer.
Apontam-nos o seu dedo acusador...
Condenam-nos, sem direito a defesa.
Todos os nossos actos ocos passam diante de nós
Que nem um filme de qualidade duvidosa.

O cansaço acaba por nos derrotar,
Deixamo-nos render pelo incontornável destino que nos aguarda e de que tanto fugimos.
Sabia que havia de chegar este dia,
Sabia que teria de me render à minha existência nula e vã...
A minha vida pára como um copo que se esvazia lentamente.
As pulsações diminuem e o corpo serena
O olhar está fixo naquele estranho olhar agora em transformação.
Já não é um estranho...
É apenas a nossa imagem reflectida e lúcida que nos chama à clarividência.

01 março, 2006

Mundo só meu


Dentro desta caixa que me encerra o corpo e alma observo...
Observo a contraluz o que se passa em meu redor,
Anseio pela sua coexistência e afasto-me
Num misto de fascínio e horror.
A luz que penetra na minha caixa branca fere-me os olhos,
Entranha-me a carne como se fossem verdadeiras lanças de desespero;
Tudo o que me impelia para o esse mundo exterior
Agora me encaminha para o meu mundo.
Nada é real, tudo é máscara e jogo
Os sorrisos que se nos abrem desferem em nós intensas dores mudas
E cada palavra sua aparece vincada por um veneno imenso
Que nos tolha o corpo e nos impede de inspirar o ar luminoso que nos rodeia.
Sinto vontade de correr para a minha caixa,
De me fechar, prostada e inerte longe desse mundo
Que me pretende engolir nesses seus braços imundos e grossos
Que nem o Monstro para os marinheiros amedrontados pelo desconhecido.
A minha caiza é branca, forrada pelos meus sonhos e ilusões,
Penetrante e destemida perante os olhares assertivos e nulos que a olham.
Tento entrar e não ocnsigo mais...
Perco a força e o cordão que me alimentava a partir dela.
Como no "Grito" de Munch todo o meu mundo se torna destorcido...
Tudo o que até aí existiu em mim torna-se espéctaculo que eu admiro em plena agonia!
Sinto-me amarrada de pés e mãos,
Violentada até às entranhas pela força bruta que este mundo nos impõe..
Quero gritar mas já não consigo!
A minha memória vai definhando passo a passo,
Dando lugar às imagens negras e putrefactas que agora já convivem comigo...
Grito mas já ninguém me ouve..
Foi um grito silencioso, comedido pelas regras que orientam já o Eles e o Eu...
Um último momento de lucidez leva-me e suster a respiração;
Os meus pulmões rebentam
Mas a minha caixa de novo se abre para me acolher.
Sinto de novo o conforto e o descanso da minha pobre alma!
Perdi o corpo, recuperei a minha vida!

23 fevereiro, 2006

Nas entrelinhas de uma carta

Sinto saudades do teu corpo..
De o sentir cravado em qualquer acto teu
De sentir a tua força premente no interior de simples linhas rasuradas à pressa após um momento de amor louco e cheio de desejo.
Passo as minhas mãos por todos os actos de criação que tiveste junto ao meu leito;
Sinto a tua força máscula e premente a emanar do simples traço da caneta que escolheste para deixar a tua nota de despedida..
Teus traços incertos constróem um caminho que gosto de percorrer imaginando o percurso até ti.
O cheiro da tinta emanada esprai-se pelo quarto com uma volúpia e penetra todos os poros do meu corpo confundindo-se com o teu cheiro.
Passo os meus lábios desvirginados por ti no papel e sinto a sua rugosidade evocar-me cada membro do teu corpo contra o meu.
Sinto falta do teu corpo..
Deixaste-me algo de ti para trás..
Deixaste-me a tua marca!
Selaste para sempre um momento único com uma marca perene e eterna:
A tua carta é testemunha inimputável da tua passagem e não mais poderá ser apagada.
Não mais a poderei apagar da memória de um qualquer telemóvel ou da minha caixa de mails recebidos.
Posso tocar-lhe a qualquer momento e imaginar que é em ti que toco...
Consigo percorrer a casa e imaginar-te nela no momento da criação.
Imagino todos os pensamentos que te passaram pela cabeça ao escrevê-la;
Imagino-te a imaginares-me...
A delineares o meu corpo com todos os seus movimentos ao ler e reler as tuas palavras...
Imaginas o meu lábio a tremer de paixão e desejo como tu gostas tanto de ver...
Sinto que o teu sangue correu mais forte no momento em que dilaceras o papel com as últimas palavras e te despedes de mim para sempre...
"Adeus meu amor, dizes tu!!!
Dei-te tudo: dei-te o meu corpo, a minha alma, todo o meu ser...
Deslindas todos os meus pensamentos e desejos!
Deixo-te a última coisa que te posso dar...
Deixo-te a minha escrita!
Deixo-te a minha verdadeira essência!
Abandono-me por completo e esvaio-me de tudo meu Amor, por ti!
Nada mais te sabia dar, nada mais tinha para que a plenitude da nossa paixão continuasse única.
Deixo-te a minha essência, todos os meus gestos e todos os meus actos concentrados...
Agora sim... poderás imaginar-me total e etéreo... pleno e profundo!
Sou eu... todo o meu eu que passa nestas palavras..
A ti me abandono!
Neste papel me esgoto e neste papel defino.
Per aeternitas..."


Pela textura de uma carta pode passar tudo o que nós queremos imaginar. Suplanta em tudo uma simples mensagem de telemóvel mas está em fremente decadência. Imaginem agora o que estão a perder...




21 fevereiro, 2006


Porque o Dia Internacional da Língua Materna?
A diversidade lingüística e cultural representa valores universais que fortalecem a unidade e a coesão das sociedades. O reconhecimento da importância da diversidade lingüística conduziu a UNESCO à decisão de celebrar o Dia Internacional da Língua Materna.
O objectivo do Dia Internacional da Língua Materna é promover a diversidade lingüística e a educação multilíngüe, e desenvolver uma consciência maior das tradições lingüísticas e culturais baseadas na compreensão, tolerância e diálogo.
é talvez estranho haver um dia para algo que todos nós usamos, para algo que estamos frequentemente a detorpar e a alterar com um bocadinho de nós. A nossa língua materna é algo que é nosso desde o primeiro momento em que começamos a ter a capacidade de discernir os sons que nos rodeiam, mas que ao mesmo tempo nos ultrapassa sendo um bem comum, universal e que precisa de todos (e nao de um mero falante) para permanecer viva.
Não nos dá saudades de casa quando estamos muito longe e ouvimos de repente uma simples palavra na nossa língua.. Com que orgulho impomos a velha saudade como uma das marcas da nossa língua...
Mesmo a tão criticada linguagem das mensagens pode ter mais de português do que inicialmente poderemos pensar.
hoje perguntavam qual a palavra em português que mais gostavam... todos responderam politicamente correcto, mas não seria bom agarrarem num dicionário e começarem o longo rol? todas as palavras são belas, nós é que as podemos tornar menos virtuosas.
O que se pode fazer pelas palavras que nada mais pode fazer por nós?...

20 fevereiro, 2006


Por entre incríveis e encantados freios
a mão que escreve
ilumina
da simples palavra
o trabalho obscuro em seu dentro.(...)
Dádiva da alma
que fala sem ter voz
que voa só para o único
e dá-se a conhecer só no oculto
tu és oferenda
a um infinito furor
A mão que escreve
prende à memória
a mais esquiva sereia?
É assim que a palavra, a posse da palavra, abeira-se da vizinhança dos deuses. A associação da palavra à criação ? verbo neoplatónico e joanino ?, é o sinal da revolta humana face ao esquecimento e à morte: usurpa o futuro aos deuses. A fragmentação ou a cegueira é o castigo para o atrevimento que a palavra actualiza. Não está aqui a
explicação para o inebriamento que acomete o poeta no instante da possessão pela palavra?


Assim fala Ana Hatherly do acto de escrita que nos leva e enebria ao sabor da corrente. A velha questão aqui se põe procurando saber se é o escritor que se escreve ou se é a escrita que acaba por levar a escrita para os seus recantos mais túmidos e obscuros... é o momento em que a criação se liberta do criador para ganhar a sua própria personalidade.
Daquilo que escrevemos quanto será que nos pertence?